segunda-feira, 8 de junho de 2009

PROFESSOR VAGABUNDO

*Claudeci Ferreira de Andrade
Em uma aula de sexta-feira, de Ensino Religioso, longe de minha residência, Escola João Pereira dos Santos. A proposta didática daquele dia era procurar num quadro de caça-palavras valores humanos. Todas as palavras que deveriam ser encontradas denotavam atributos de um bom caráter. Perante muitos gritos e desordem, é assim que se comportavam normalmente naquela sala de sexto ano, alguns conseguiram terminar a tarefa. Um aluno que não estava fazendo “nada”, daqueles “atentados”, em plena aula, empurrou umas colegas para fora da classe, segurou a porta e diabolicamente gritava:
— Prossor, prossor, prossor, oia aqui, elas está fora da sala!
Eu me aproximei dele, e com voz de quem tinha alguma autoridade, o chamei de vagabundo e fi-lo sair dali. As meninas entraram, e ele saiu da sala arrogantemente fazendo ameaças de denunciar-me a secretaria de educação. Logo, na aula seguinte, daquele mesmo dia, uma das meninas num espírito de gratidão, mostrou-me, na contracapa de um ninidicionário da escola, que circulava entre eles, a frase: “Claudeci é viado” (sic). No recreio, um colega, daqueles provocadores de discórdia, comentou que o “fulaninho de tal” iria me denunciar. Alguém mais ali, para me amedrontar, disse:—E os mininu aqui denuncia mermo!
Quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou os aposentados, em rede nacional, de vagabundos, deu um tratamento especial a esta palavra, uma nova extensão semântica se agregou, pois ele mesmo era um professor aposentado. Como deveriam se comportar os aposentados diante do adjetivo nessa circunstância? E o mencionado aluno? Para responder a estas perguntas, perguntemos primeiro: Que matou a Cristo? Foi o pecado. E não teria de ser necessariamente o pecado do mundo todo. Se houvesse um só pecado, o Professor dos professores teria aceitado a culpa, e esse único pecado ter-Lhe-ia custado a vida. Eu sou o vagabundo, nômade, sem qualidade, desocupado, ainda tive tempo de escrever este texto: uma reflexão de minha prática docente; e olha que já fui “lotado” em muitas escolas do município! Jogado daqui para Lá e de lá para cá! E é porque trabalho com carga horária mínima(15 aulas por semana)!
Conta-se que um jardineiro na índia estava trabalhando no campo quando foi mordido na mão por uma cobra Krait, uma das serpentes mais venenosas que existem. Ele sabia que não havia soro algum contra a peçonha inoculada por ela. Sabia também que, mesmo que houvesse, não teria tempo para tomá-lo, pois dentro de poucos minutos o veneno atingiria o sistema nervoso central, causando-lhe a morte. Deliberadamente, apoiou o braço no tronco de uma árvore e, brandindo a lâmina do facão, decepou a própria mão. Seus amigos ouviram os gritos emitidos por ele e foram correndo ajudá-lo a estancar o sangue. Sua ação imediata e decisiva salvou-lhe a vida.
Quem se importaria com um professor "mordido de cobra", que se mutile ou que morra! Se quando um morre nasce outro em seu lugar funcional.
*Claudeko
Sou um professor apaixonado pela educação. http://recantodasletras.uol.com.br/autores/claudeko

Um comentário:

  1. Obrigado, Silvana, por postar minha crônica neste respeitado blog. Sinto-me honrado pelo apoio. Por termos objetivos comuns é que nos unimos nesse pleito. Parabéns pela seleção de bons texto bem direcionados. Agradeço também a nossos leitores por empregar bem o seu tempo com coisas proveitosas. Abraços! Estejam a vontade em visitar meu blog, lá tem muito a ver.

    ResponderExcluir