segunda-feira, 8 de junho de 2009

'Professor não vai concorrer em desigualdade', diz Haddad

Para ministro, focalizar apenas na formação do docente não é suficiente para enfrentar o problema
Andréia Sadi, do estadão.com.br e Bruna Tiussu,
Clipping Educacional - especial para O Estado
SÃO PAULO - A formação de professores no País foi a questão central do debate promovido pelo Grupo Estado, nesta segunda-feira, 8, que trouxe o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o secretário de Educação de São Paulo, Paulo Renato, como convidados. Durante duas horas e para uma platéia de mais de 200 convidados, Haddad e Renato, que já foi titular da pasta na gestão de Fernando Henrique Cardoso, apontaram os principais problemas da educação pública e responderam a questões relacionadas com a educação a distância, salário dos professores, bônus e violência na escola.
Para o ministro, é essencial que os docentes sejam valorizados da mesma forma que qualquer outro profissional. Além da valorização da profissão, ele apontou outras duas ações necessárias para a eficiente formação de docentes: a competência das licenciaturas e a existência de filtros para selecionar o ingresso nos cursos e no mercado de trabalho.
Haddad defende que é essencial que o salário dos professores seja equivalente ao de qualquer outro profissional. "A minha impressão inicial é de que não devemos falar de formação desconectada de outra questão, que é a da carreira, do magistério." Segundo o ministro, em 2003 profissionais com nível superior - completo ou incompleto - de outras áreas ganhavam até 86% a mais que um professor da escola pública ou privada. Em 2007, essa diferença caiu para 61%, ou seja, caiu 25 pontos em quatro anos.
"Se mantivermos esse passo, e veja que estou falando de um dado prévio, a aprovação do piso da categoria e do Fundeb pleno, em algum lugar no tempo, entre 2014 e 2015, estes valores estarão equiparados. Ou seja, professor de nível superior não ganhará menos que a média dos demais profissionais de nível superior. Isso será uma grande notícia para o magistério, porque a carreira não vai concorrer em desigualdade com as todas as outras", afirma o ministro.
O último censo do professor mostrou que 17,5% dos cerca de 1,872 milhão dos docentes que atuam no ensino básico não tem formação adequada. Para o ministro, falta investimento na área e o Estado tem o dever de assumir de forma mais efetiva a formação de docentes. "Precisamos de maior envolvimento das universidades e institutos federais e estaduais que têm capacidade para formar professores, para alterar o perfil desses profissionais que vão iniciar a carreira".
Segundo o secretário Paulo Renato, a formação de professores é o maior desafio para a melhoria da qualidade da educação no País e a questão central do problema é que os cursos não dão um instrumental adequado para o trabalho em sala de aula. "A formação é dual. Se dá de forma separada o conteúdo nas faculdades específicas e a questão didática é vista na faculdade de pedagogia. O estudante é quem tem que fazer uma síntese dos aspectos do conteúdo e da parte pedagógica. O ideal seria integrar esses dois conhecimentos em uma só instituição."
O MEC tem um projeto para duplicar a oferta de cursos de pedagogia em todo o País. Segundo Haddad, o projeto reúne 38 institutos federais - os antigos Cefets - que terão que oferecer cursos de licenciatura em mais de 300 cidades. "Estes novos cursos, junto com os já existentes nas universidades, possibilitará a oferta de cursos de licenciatura gratuitos e de qualidade." O ministro completa ainda que o ensino deve estar próximo aos alunos. "Aquela ideia de formar os jovens na capital e que depois ele voltará para dar aulas na sua cidade tem que ser invertida. Devemos levar a possibilidade de formação até eles".
A terceira tarefa que o ministro aponta é a criação de filtros de seleção em dois momentos da formação de professores, um no ingresso ao curso de licenciatura e outro no ingresso ao mercado de trabalho, que nem sempre é feito através de concurso público.
Escola de Formação dos Professores de São Paulo
Em São Paulo, há um projeto de lei na Assembleia que muda a maneira de acesso à carreira, o candidato a professor presta concurso público, é aprovado, e, a partir daí, deverá fazer um curso de quatro meses. "Este curso será parte do concurso. O professor deverá ser aprovado no curso. O que pretendemos? Justamente, focar as questões de formação nos temas da sala de aula, tanto na questão dos conteúdos quanto na didática de cada disciplina", explicou o secretário Paulo Renato.
Para coordenar estes cursos, foi criada a Escola de Formação de Professores de São Paulo. A previsão é de 60 mil vagas para docentes no próximo semestre. Os professores temporários deverão realizar uma prova para lecionar. Há 210 mil professores na rede estadual e cerca de 110 mil são temporários.
Para o secretário, a dupla seleção visa garantir o preparo dos professores que entrarão nas salas de aula. "Esta dupla seleção é a forma de muitas carreiras públicas", completa Renato.
Bônus para as escolas
Sobre o bônus, Paulo Renato explicou que é uma gratificação para o desempenho do professor. "Não é só algo inovador, mas diria que está na fronteira daquilo que vem sendo discutido em todo o mundo como instrumento para melhoria da qualidade de nossas escolas públicas que não é só desafio no Brasil". Ele frisa que não é um prêmio às melhores escola, mas à evolução delas. "É preciso reconhecer que as escolas boas puxam nossas médias para cima, de alguma maneira, mesmo que elas não tenham evoluído, algum benefício elas trazem para o sistema educacional. E, neste sentido, nós vamos estudar que modificações deveremos fazer em relação a essas melhores escolas que não evoluiram."
Segundo o ministro Haddad, a questão agora é pensar quais adaptações são necessárias para o aperfeiçoamento do programa de bônus para as escolas. "Em geral, na educação básica as experiências são muito recentes. Em 2007, o governo criou uma política de 'bônus' para escolas que cumprem as metas exigidas pelo Ministério. O índice de Desenvolvimento da Educação Básica aumentou de cerca de 3% para 4,1% e a meta é chegar nos 6%", diz Haddad. Na primeira rodada do programa, 80% dos municípios cumpriram as metas estipuladas.
Para Paulo Renato, o mais importante é que há metas e todos estão tentando alcançá-las. "Estamos no caminho, o que envolve mais recursos para a infraestrutura destas escolas e um trabalho mais próximo aos coordenadores pedagógicos. Não é que pagamos o bônus e esquecemos o resto, as escolas são um objeto de muita atenção da Secretaria."
Educação a Distância
Fernando Haddad diz não estabelecer uma ligação direta entre qualidade e modo de ensino. "Há cursos presenciais ruins e cursos a distância bons. No entanto, nem sempre é possível (ser presencial), sobretudo para professores em serviço que estão em regiões muito distantes dos grandes centros", disse. O ministro defendeu que os polos de formação de professores a distância tragam condições aos alunos de manterem interação com o professor e que os materiais didáticos sejam de qualidade. "Eu penso que é uma solução que pode ajudar boa parcela do magistério", falou, em relação aos cursos a distância.
Paulo Renato concorda com Haddad de que não é a modalidade que define a qualidade do curso. "É uma questão de método e foco nos problemas que são cruciais de cada profissão. Sentimos muita falta nos cursos de formação da questão prática", disse.
Violência
Para o ministro Haddad, a educação em tempo integral e em espaços externos, como praças e clubes, é um dos meios pra combater a violência na escola. "Chegou o momento de a escola tomar o seu espaço, sair dos próprios muros e ocupar lugares públicos", disse.
Já o secretário Paulo Renato falou que uma das medidas tomadas pelo estado para combater a violência na escola é a implantação de um sistema online para registros de casos. "Nós acabamos de lançar um plano de segurança nas escolas, em que há um local na internet onde é possível o diretor registrar uma ocorrência ou alguém realizar uma denúncia anônima".
Enem
Sobre as críticas quanto ao ranqueamento que o Exame Nacional do Ensino Médio, Enem, traz às escolas, Haddad disse que o ministério só divulga os resultados da prova e que a classificação das instituições de ensino é uma consequência natural de interpretação de dados. "O resultado por escola serve como uma orientação para que os pais se aproximem das escolas de seus filhos, comecem a cobrar o tipo de educação que estão recebendo. Isso é essencial para a educação."
Para o secretário Paulo Renato, esses dados não poderiam ser levados em cosideração, já que a prova é voluntária. "Não dá para saber se aquela escola tem uma mostra significativa para ser avaliada", comentou.
Quanto às mudanças do Enem, o ministro diz o objetivo primordial é adequá-lo para que possa servir de parâmetro de comparação ao longo do tempo. "As alterações são evoluções naturais dos instrumentos de avaliação do país. O Brasil hoje está na dianteira dos processos de avaliação".
Sobre as mudanças promovidas pelo Enem, o secretário diz ser crítico desde o início. "Acho louvável o objetivo de resolver a mobilidade dos candidatos, mas identifico alguns problemas." Segundo ele, para ser um processo seletivo, o Enem levará em conta mais o conteúdo e deixará de ser um exame geral de avaliação, sua função inicial.
Opiniões
A especialista em aperfeiçoamento docente Marcia Savioli, que esteve no debate com o ministro Haddad e o secretário Paulo Renato, considerou que o assunto principal foi desviado. "A oportunidade demonstra os vários pontos a serem discutidos sobre educação. Tentou-se fechar na formação dos professores, mas como há outros assuntos de interesse geral, o debate acabou perdendo um pouco o foco. É preciso promover espaços de debate como este com mais frequência."
Miriam Bevilacqua, da Pró-reitoria da Uniban, concorda. "O tema ´formação dos professores´ poderia ter sido mais aprofundado. Falou-se do curso proposto pela Secretaria de São Paulo, mas não tivemos muita informação sobre como ele será feito."
fonte:http://www.estadao.com.br

Ela aponta ainda que esperava escutar mais sobre as ações do MEC quanto tema. "Falou-se das licenciaturas, mas formação de docentes não é só isso. Queria saber qual é a posição do Ministério sobre os cursos complementares, que hoje não são obrigatórios, só fazem os professores que querem", afirma.

Gisela Wajskop, doutora em Educação e diretora do Instituto Superior de Educação de São Paulo Singularidades, e Ivaneide Dantas, mestre em liguistica, disseram que o auditório lotado mostrou a importância que a Educação vem ganhando nos últimos tempos. "A sociedade civil está cansada. Professor mal formado passa informação ruim. Sem uma formação adequada, não há qualificação no mercado", disseram.

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