Adriana Prado e Maíra Magro
Pesquisa publicada pela revista Isto É mostra que professores sentem sua autoridade diminuir e um em cada quatro diz ter sofrido ameaça de agressão
Clipping Educacional - Isto É (01.06.2009)
Adriana Prado e Maíra Magro
"Só sendo muito idealista para suportar"
Nilza Gomes dos Santos, professora de ensino fundamental do Distrito Federal
""Vou mais um dia para a escola, desanimada e certa de que as aulas não serão dadas. Quando chego à porta da sala tenho vontade de sumir." Este é um trecho da carta da professora mineira de ensino fundamental Áurea Damasceno endereçada à Secretaria de Educação de Belo Horizonte. O texto-desabafo circulou na internet e trouxe à tona, mais uma vez, o anacronismo do modelo pedagógico na rede pública e a crise de autoridade dos professores, que costumam acumular problemas nas cordas vocais de tanto gritar dentro das salas de aula. "Metade da turma passa o tempo todo conversando, pulando de cadeira em cadeira", continua a professora Áurea, confessando que se sente dentro de "uma rebelião".
Outro inimigo dos mestres é a violência dentro das classes. Uma professora foi torturada por um aluno em São Paulo, outra, no mesmo Estado, ameaçada de morte, vários são alvo de intimidações. Uma pesquisa sobre convivência escolar divulgada no início do mês pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla) e a Secretaria de Educação do Distrito Federal transforma o problema em um número desanimador: 67,6% dos educadores sentem que sua autoridade ficou mais fraca nos últimos anos. O levantamento ouviu 1,3 mil profissionais da capital federal. "O retrato sintetiza a situação da maioria das escolas públicas do País", afirma a socióloga Miriam Abramovay, que coordenou o trabalho. "Os professores se sentem numa panela de pressão."
"Entro na sala de aula e me pergunto: o que estou fazendo aqui?"
Rosilene Almeida da Silva, que dá aulas para 18 turmas de até 60 alunos no Rio
A dificuldade começa ao entrar na sala. "Levo 20 minutos para chamar a atenção dos alunos", diz Paulina Cordeiro, que ensina geografia no ensino fundamental das redes municipal e estadual do Rio de Janeiro. "Tenho que berrar. Estou perdendo a voz", lamenta. À sua frente, jovens com celular e jogos eletrônicos - ou, até mesmo, dormindo. Esse desinteresse foi identificado na pesquisa da Ritla: 84,2% dos professores acham que os alunos prestam pouca atenção - ou nunca o fazem. Para Mírian Paura, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, isso se deve, em parte, às características atuais do sistema de ensino.
"As escolas não conseguiram se adequar à rapidez da informação e do conhecimento que os alunos encontram fora delas." A violência é o que mais assusta. Segundo a pesquisa, 26,4% dos professores já foram ameaçados pelos alunos e 7,5% sofreram violência física. Rosângela Castrioto, de São José dos Campos, em São Paulo, que dá aula de matemática no ensino médio, é uma dessas vítimas. Enquanto respondia às perguntas de uma estudante, no dia 18, ela sentiu o cabelo pegando fogo. "Um aluno veio por trás e riscou um fósforo", contou à ISTOÉ. Na delegacia, o garoto, de 16 anos, disse que "foi sem querer". "O comportamento deles está cada vez pior.
Quando estive na delegacia encontrei outra professora que registrava queixa porque tinha apanhado de uma aluna." Com Maria, professora do ensino médio, que pediu para não revelar seu sobrenome, aconteceu pior. Ela foi torturada durante 50 minutos em uma sala com 46 alunos, em São Paulo. "Amarraram minhas mãos, me amordaçaram e me jogaram no chão", conta. "Com lápis e canetas com pontas bem finas me furaram o corpo." Após o episódio, Maria teve síndrome do pânico, passou a receber ameaças e se mudou de casa.
Salários baixos e inadequação das escolas também complicam a situação. A professora de ensino fundamental Nilza Gomes dos Santos, do Distrito Federal, resume sua luta: "Só sendo muito idealista para suportar." Dividida entre 18 turmas com até 60 estudantes de ensino médio e fundamental, nas redes estadual e municipal do Rio, Rosilene Almeida da Silva reclama de esgotamento físico e emocional por causa da jornada de trabalho multiplicada.
"Minha vocação é ensinar e não lidar com a bagunça total"
Luiz Henrique da Costa, que leciona matemática em São Paulo
Além de problemas na voz, o trabalho lhe causou lesões na coluna e nos braços. Por fim, ela caiu em depressão. "Entro na sala de aula e me pergunto: o que estou fazendo aqui?" Ela não é a única a fazer esse tipo de questionamento. "Minha vocação é ensinar e não lidar com a bagunça total", revolta-se Luiz Henrique da Costa, que leciona matemática no ensino fundamental na rede pública em São Paulo. Enquanto nada for feito, além dos mestres, a educação será a maior vítima desse sistema educacional falido.
"Só sendo muito idealista para suportar"
Nilza Gomes dos Santos, professora de ensino fundamental do Distrito Federal
""Vou mais um dia para a escola, desanimada e certa de que as aulas não serão dadas. Quando chego à porta da sala tenho vontade de sumir." Este é um trecho da carta da professora mineira de ensino fundamental Áurea Damasceno endereçada à Secretaria de Educação de Belo Horizonte. O texto-desabafo circulou na internet e trouxe à tona, mais uma vez, o anacronismo do modelo pedagógico na rede pública e a crise de autoridade dos professores, que costumam acumular problemas nas cordas vocais de tanto gritar dentro das salas de aula. "Metade da turma passa o tempo todo conversando, pulando de cadeira em cadeira", continua a professora Áurea, confessando que se sente dentro de "uma rebelião".
Outro inimigo dos mestres é a violência dentro das classes. Uma professora foi torturada por um aluno em São Paulo, outra, no mesmo Estado, ameaçada de morte, vários são alvo de intimidações. Uma pesquisa sobre convivência escolar divulgada no início do mês pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla) e a Secretaria de Educação do Distrito Federal transforma o problema em um número desanimador: 67,6% dos educadores sentem que sua autoridade ficou mais fraca nos últimos anos. O levantamento ouviu 1,3 mil profissionais da capital federal. "O retrato sintetiza a situação da maioria das escolas públicas do País", afirma a socióloga Miriam Abramovay, que coordenou o trabalho. "Os professores se sentem numa panela de pressão."
"Entro na sala de aula e me pergunto: o que estou fazendo aqui?"
Rosilene Almeida da Silva, que dá aulas para 18 turmas de até 60 alunos no Rio
A dificuldade começa ao entrar na sala. "Levo 20 minutos para chamar a atenção dos alunos", diz Paulina Cordeiro, que ensina geografia no ensino fundamental das redes municipal e estadual do Rio de Janeiro. "Tenho que berrar. Estou perdendo a voz", lamenta. À sua frente, jovens com celular e jogos eletrônicos - ou, até mesmo, dormindo. Esse desinteresse foi identificado na pesquisa da Ritla: 84,2% dos professores acham que os alunos prestam pouca atenção - ou nunca o fazem. Para Mírian Paura, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, isso se deve, em parte, às características atuais do sistema de ensino.
"As escolas não conseguiram se adequar à rapidez da informação e do conhecimento que os alunos encontram fora delas." A violência é o que mais assusta. Segundo a pesquisa, 26,4% dos professores já foram ameaçados pelos alunos e 7,5% sofreram violência física. Rosângela Castrioto, de São José dos Campos, em São Paulo, que dá aula de matemática no ensino médio, é uma dessas vítimas. Enquanto respondia às perguntas de uma estudante, no dia 18, ela sentiu o cabelo pegando fogo. "Um aluno veio por trás e riscou um fósforo", contou à ISTOÉ. Na delegacia, o garoto, de 16 anos, disse que "foi sem querer". "O comportamento deles está cada vez pior.
Quando estive na delegacia encontrei outra professora que registrava queixa porque tinha apanhado de uma aluna." Com Maria, professora do ensino médio, que pediu para não revelar seu sobrenome, aconteceu pior. Ela foi torturada durante 50 minutos em uma sala com 46 alunos, em São Paulo. "Amarraram minhas mãos, me amordaçaram e me jogaram no chão", conta. "Com lápis e canetas com pontas bem finas me furaram o corpo." Após o episódio, Maria teve síndrome do pânico, passou a receber ameaças e se mudou de casa.
Salários baixos e inadequação das escolas também complicam a situação. A professora de ensino fundamental Nilza Gomes dos Santos, do Distrito Federal, resume sua luta: "Só sendo muito idealista para suportar." Dividida entre 18 turmas com até 60 estudantes de ensino médio e fundamental, nas redes estadual e municipal do Rio, Rosilene Almeida da Silva reclama de esgotamento físico e emocional por causa da jornada de trabalho multiplicada.
"Minha vocação é ensinar e não lidar com a bagunça total"
Luiz Henrique da Costa, que leciona matemática em São Paulo
Além de problemas na voz, o trabalho lhe causou lesões na coluna e nos braços. Por fim, ela caiu em depressão. "Entro na sala de aula e me pergunto: o que estou fazendo aqui?" Ela não é a única a fazer esse tipo de questionamento. "Minha vocação é ensinar e não lidar com a bagunça total", revolta-se Luiz Henrique da Costa, que leciona matemática no ensino fundamental na rede pública em São Paulo. Enquanto nada for feito, além dos mestres, a educação será a maior vítima desse sistema educacional falido.
fonte:http://e-educador.com




PROFESSOR VAGABUNDO
ResponderExcluirClaudeci Ferreira de Andrade
Em uma aula de sexta-feira, de Ensino Religioso, longe de minha residência, Escola João Pereira dos Santos. A proposta didática daquele dia era procurar num quadro de caça-palavras valores humanos. Todas as palavras que deveriam ser encontradas denotavam atributos de um bom caráter. Perante muitos gritos e desordem, é assim que se comportavam normalmente naquela sala de sexto ano, alguns conseguiram terminar a tarefa. Um aluno que não estava fazendo “nada”, daqueles “atentados”, em plena aula, empurrou umas colegas para fora da classe, segurou a porta e diabolicamente gritava:
— Prossor, prossor, prossor, oia aqui, elas está fora da sala!
Eu me aproximei dele, e com voz de quem tinha alguma autoridade, o chamei de vagabundo e fi-lo sair dali. As meninas entraram, e ele saiu da sala arrogantemente fazendo ameaças de denunciar-me a secretaria de educação. Logo, na aula seguinte, daquele mesmo dia, uma das meninas num espírito de gratidão, mostrou-me, na contracapa de um ninidicionário da escola, que circulava entre eles, a frase: “Claudeci é viado” (sic). No recreio, um colega, daqueles provocadores de discórdia, comentou que o “fulaninho de tal” iria me denunciar. Alguém mais ali, para me amedrontar, disse:
—E os mininu aqui denuncia mermo!
Quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou os aposentados, em rede nacional, de vagabundos, deu um tratamento especial a esta palavra, uma nova extensão semântica se agregou, pois ele mesmo era um professor aposentado. Como deveriam se comportar os aposentados diante do adjetivo nessa circunstância? E o mencionado aluno? Para responder a estas perguntas, perguntemos primeiro: Que matou a Cristo? Foi o pecado. E não teria de ser necessariamente o pecado do mundo todo. Se houvesse um só pecado, o Professor dos professores teria aceitado a culpa, e esse único pecado ter-Lhe-ia custado a vida. Eu sou o vagabundo, nômade, sem qualidade, desocupado, ainda tive tempo de escrever este texto: uma reflexão de minha prática docente; e olha que já fui “lotado” em muitas escolas do município! Jogado daqui para Lá e de lá para cá! E é porque trabalho com carga horária mínima(15 aulas por semana)!
Conta-se que um jardineiro na índia estava trabalhando no campo quando foi mordido na mão por uma cobra Krait, uma das serpentes mais venenosas que existem. Ele sabia que não havia soro algum contra a peçonha inoculada por ela. Sabia também que, mesmo que houvesse, não teria tempo para tomá-lo, pois dentro de poucos minutos o veneno atingiria o sistema nervoso central, causando-lhe a morte. Deliberadamente, apoiou o braço no tronco de uma árvore e, brandindo a lâmina do facão, decepou a própria mão. Seus amigos ouviram os gritos emitidos por ele e foram correndo ajudá-lo a estancar o sangue. Sua ação imediata e decisiva salvou-lhe a vida.
Quem se importaria com um professor "mordido de cobra", que se mutile ou que morra! Se quando um morre nasce outro em seu lugar funcional.