quinta-feira, 28 de maio de 2015

Acolher as mães e seus filhos

rosely sayão
Psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças-feiras.
Ser mãe na atualidade não é fácil. Eu, que tive filhos nos anos 70, imaginava que, no futuro, seria mais fácil e simples o cotidiano com as crianças. Qual o quê! Cada vez há mais questões com os filhos, que exigem muito das mães —é internet, são as baladinhas e a erotização precoces, os aparelhos eletrônicos, os passeios em shoppings sem adultos etc. Tudo isso exige bastante dos pais também, mas hoje quero chamar a atenção para alguns aspectos do papel de mãe.
Muitas mulheres precisam trabalhar não apenas pela questão econômica: é também vontade de desenvolver um trabalho que, além de remuneração, ofereça a possibilidade de intervenção social com o consequente reconhecimento, é vontade de desenvolvimento intelectual ou profissional, e o desejo de autonomia em vários sentidos.
Mesmo com tantos avanços em relação à desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho, testemunhamos um retrocesso. Notícias apontam que, em 2003, a diferença de remuneração era de 6,85%, favorável ao homem; em março deste ano, a diferença saltou para 14,38%. Em síntese: a mulher precisa trabalhar mais para receber menos.
Como se não bastassem as inúmeras adversidades que a mulher encontra em seu trabalho remunerado, há mais: agora, muitas empresas preferem contratar mulheres que não tenham filhos. A restrição é tão forte que algumas já colocam em lugar de destaque em seu currículo a seguinte informação: "sem filhos".
Além disso, são raríssimas as organizações que têm um local para filhos de funcionárias ficarem em caso de emergência, ou fixo, no caso da primeira infância. Aliás, muitas empresas até proíbem que funcionárias entrem com crianças em seu espaço. É por isso que algumas poucas mulheres, que podem realizar seu trabalho remunerado fora da instituição, têm procurado "espaços de coworking": neles, elas encontram um ambiente em que é possível conciliar o exercício profissional com a maternidade.
A vida não está amigável para mães e crianças. Nem sempre foi assim: encontrar filhos, de vez em quando, em empresas já foi comum. Nem mesmo as escolas, que têm em seu quadro de funcionários um número majoritário de mulheres e têm como missão o trabalho com os mais novos, contemplam essa questão.
E, por falar em escola, até em faculdades alunas que têm filhos podem sofrer por causa disso. Recentemente, uma aluna que está prestes a terminar seu curso de gestão ambiental na USP quase foi impedida de realizar uma das provas finais porque tinha tirado licença-maternidade, o que é um direito garantido por lei, por sinal.
Cada um de nós é responsável por todos os mais novos. São eles o nosso futuro, sendo ou não nossos filhos. Precisamos honrar esse nosso compromisso realizando ações que colaborem com mães e crianças.
Por que não pressionamos as empresas para que tenham um local adequado para acolher crianças maiores esporadicamente, e também um ambiente para crianças pequenas, para que as mães possam vê-las com frequência? O custo desse tipo de ambiente é baixo: um adulto responsável, estante de livros, jogos, local para estudar etc. Basta isso.
Responsabilidade social está em alta nas empresas: pois acolher as mães que têm filhos nada mais é do que praticá-la. Vamos aderir a essa questão? Em tempo: essa não é uma luta restrita às mulheres!
fonte:http://www1.folha.uol.com.br/

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