O professor Paulo Miceli abriu sua explanação destacando a importância da cartografia para o entendimento dos conflitos. “Neste primeiro diálogo gostaria de destacar, como nós, professores de história, devemos perceber e aplicar nas salas de aula o uso de mapas”. “Mais do que documentos históricos”, ressalta o professor Miceli, “os mapas são Monumentos nos quais podemos verificar as raízes históricas dos conflitos humanos, estabelecidos no cenário do mundo, ao longo de séculos.”Lembrando um dos grandes historiadores franceses, o professor cita um pensamento de Lucien Febvre: “A história normalmente registra as más ações das pessoas, os conflitos, as guerras, as rivalidades, as subjugações de culturas e até mesmo o extermínio de civilizações inteiras, ao invés de trabalhar as boas ações humanas.” E, concluindo a idéia inicial, considera que: “na verdade, quando a gente analisa a história, o que mais nos chama a atenção é o nível de aperfeiçoamento dos mecanismos de destruição coletiva.”
Segundo o professor Miceli, a cartografia surgiu como um saber estratégico importante a partir do século XVI, há mais de 500 anos; um sistema de avaliação entre a humanidade e o seu universo.Como exemplo, o professor apresentou o mapa da África, de 1914, que revela um continente dividido entre grandes potências européias, no auge do processo do imperialismo. O domínio do continente africano, que teve início com a conquista de Celta, foi disputado por oito nações, países, principalmente Ibéricos, que saíram em busca de caminhos para o comércio de mercadorias, bloqueado pelos turcos, ao conquistarem Constantinopla – hoje, Istambul.
“Das guerras, desde a América pré-colombiana, época em que os Astecas dominavam populações, passando pelas grandes guerras do século XX, essencialmente de 1914/18 e de 1939/45, até as guerras em tempo real, especialmente no Oriente, que são assistidas no conforto das salas das casas, demonstram”, diz, “uma característica, até mitológica do ser humano, de ao invés de construir a solidariedade, perpetuar o acirramento das rivalidades”.
“O que se verifica”, ressalta Paulo Miceli, “é que os conflitos, ainda que localizados em determinados países, têm uma característica mundial.”Caminhos abstratos para a imaginação concreta...”
“Eu gostaria”, diz o professor, “de deixar para vocês alguns dados a respeito da cartografia. Existem várias formas de manifestações cartográficas. Elas estão nas identificações de limites, fronteiras, nos campos de caça, estabelecendo as relações de poder entre os vários grupos que formam a história da sociedade”.
“A cartografia”, completa, “é a primeira linguagem. Surgiu na humanidade em pinturas rupestres, ou seja, é mais antiga do que a escrita”.Segundo ele, nossa linguagem cotidiana está assinalada por vocábulos e códigos que compõem a linguagem cartográfica. Quando dizemos que uma pessoa está desnorteada, afirmamos que ela não tem norte. Se definirmos uma pessoa como desorientada, concluímos que ela não tem oriente. Ao considerarmos uma cidadezinha, dizemos que ela é tão pequena que não está nem no mapa.
Para explicar a importância de “estar no mapa”, o professor lembrou Abraham Ortélius – cartógrafo flamengo de Antuérpia, século XVI, nascido em 1527 e falecido em 1598, autor do primeiro Atlas, o Theatrum orbis terrarum, no qual representou a Terra Conhecida, em mapas construídos segundo um sistema de projeção matemática – e contou que, ao terminar o trabalho, o cartógrafo apresentou-o a um cardeal, que após não localizar a cidade natal dele no mapa, disse a Ortélius: “Esse mapa está errado, vá fazer outro”.
Para exemplificar que um mapa pode servir como uma obra de arte, o professor Miceli citou o poema “O esplendor dos mapas”, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos): “um poema histórico e cartográfico.”E o esplendor dos mapas,caminho abstrato para a imaginação concreta,Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha.O que de sonho jaz nas encadernações vetustas,Nas assinaturas complicadas (ou tão simples e esguias)dos velhos livros.
Em outro exemplo curioso, que mostra a riqueza e diversidade do uso dos mapas, o professor Miceli mencionou a obra do inglês Robert Burton, A Anatomia da Melancolia, na qual o acadêmico e vigário da Universidade de Oxford diz que a visualização de mapas trazia bem-estar e cura para a melancolia.O desenho do Brasil.
Na parte final da videoconferência, o professor Paulo Miceli apresenta uma seqüência cartográfica, que traça a importância geopolítica e estratégica dos mapas.
Partindo do mapa-múndi extraído da geografia de Ptolomeu, em que as Américas ainda não são mencionadas, o professor expôs o imaginário bíblico da época, lembrando que o mundo ali retratado teria sido dividido em três partes por Noé, após o dilúvio. Partes que correspondem aos seus três filhos – Sem, Jafé e Cam (o filho amaldiçoado) – que segundo a Bíblia – Gênesis 9:18/19 – teriam povoado toda a terra. A quarta parte, a surgir no futuro, seria a das Américas.Ao detalhar o desenho do mapa do Brasil, Miceli explicou as cinco Entradas, que compuseram a imagem geográfica brasileira, a partir dos conflitos pela disputa da nova terra. Na primeira, a preocupação era o traçado detalhado da costa brasileira; na segunda, as fronteiras da Amazônia; na terceira, o Nordeste; na quarta, o mapa do sertão, descrito como o mapa da antropofagia; a última, da região Sul, mostra uma cartografia de dentro para fora, ou seja, a entrada feita do interior do País para o litoral.
O professor Paulo Miceli encerrou o que chamou de diálogo solicitando que os trabalhos fossem dirigidos com ênfase na importância da cartografia e desejando “que todos nós encontremos o mapa da educação”.




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